Pensava que estava preguiçosa de escrever, murcha de paixão, veja só. Lembrava dos amores partidos, do menino antigo perguntando "qual o nome desta palavra?", seguido de "o que chama saudade?", e do Sr. Luís Flores, taxista chileno ao me contar do Golpe, perguntando "o que és más que nostalgia?"
O vínculo latino do espanhol, ela andando nas beiras do rio Mapuchi, o bilhar cheio de novo, a figueira fiando os encontros, a cadência de um tango desmentindo todas as idades, a polícia federal autorizando a partida; o desaprendizado do espaço nas andanças em "la Corrientes", as crianças da Islândia*, "las vertiginosas cascatas de los cielos", Corcovado em poros, Salvador denunciando o torneio das cochas, a manobra no volante se aprendendo; ela, eu e Eliane Brun no mesmo desatino; as cédulas no chão da padaria, a ocupação da casa; a presença naquele retrato; ele me contando das coragens cariocas; nossas derivas no caos; o cheiro de erva mate, os balões da minha passagem, o gosto da neve, eu e Pablito "chiquelinos"; o filtro vermelho banhando as prosas sem fim, os olhos des-pedintes autorizando o namoro, a moto no asfalto, a Paraíba inteira a conhecer; vento no paraquedas, a distância contada pelos mapas, dias de chegada, um andar baixo e torto, aquele amor que poderia ter aberto o peito e se despreocupado com a porta, a infinita paciência da tia Luzia nos ensinamentos matemáticos, as praias de água doce, o relógio denunciando as auroras, borboletas no vácuo do estômago, o reencontro contando as razões indizíveis de uma despedida, uma precipitação na curva da inabilidade, aquela fala lânguida, cheia de gosto de vida sem pressa, idades adiantadas na solidez do verbo, o calendário contando dos versos que se vão, o formigamento nos ombros anunciando o novo; uma presença de futuro, assassinando o presente; a invenção daquela voz, a acepcia de uma febre, o sorriso-menino me roubando da máquina, um desatino antecipando a ida, os fios dourados saindo da cabeça; o sentido da partida dilacerando o peito e autorizando o corpo, a justeza da mão no encaixe da cintura estreita, as pernas que não desejavam partir e no entanto se foram, aquele peito que nem era largo, mas era pleno em acolhimento diante do meu sempre desentendimento das horas na vida; des-caminhos pela cidade, minhas águas flutuando nas ondas do sal, a ciranda no concreto da paulicéia, aqueles circenses brincando com a vida no fio dos malabares...
Não se trata de um encontro nostalgico, é que tem dias que tudo vira cantiga sentida, rebenta de saudades. Sempre gostei de registrar, inícios, restos de dias, inteiros de vida, trechos de diálogos ouvidos com cantos de olhos, borrões-froteiras, invenção de cores que contornam e enganam a vista miope. Corpo: folha limpa, campo-registro dos invisíveis que parecem sustentar a vida. Já chamaram de prosa-poética, de foto-fundo-de-retina. Mas eu acho que a grafia é lugar onde sobrevivo a mim mesma, degusto ou vomito a metade que ainda não digeri, aquela que ainda não nasceu. As teclas, tinta, obturador, palavras e trechos do vivido são travessias na densidade de existir, um trago-dobra pra fora do engolido vento-soluço.
Dias de mudez, as perguntas voltavam, o desaprendizado sobre o nome das palavras, as dúvidas escorriam grossas em pleno desamparo. Escrevia cartas para ninguém, sem cor, papel ou letras, como que sinal da memória, transbordo para dentro, escapando pelos olhos, pelos dedos. Falta de palavras foi o sentimento de uma saudade, lugar bom de fazer silêncio. Não escrevia daqui, mas dos caminhos do viaduto, no descabido das calçadas, no azedo suave da uva, visitando a correria pela janela, na risca do meio fio, ouvindo notas de vozes, da estampa dos lençóis, da carne no concreto, as trilhas do céu. Fogueira em corpo só, fazendo as horas voar na debilidade de quarta feira alguma. Solitária de quem (s)?
Desejei ignorá-la, deixei alguns dinheiros no cosole do carro, para que alguém a roubasse junto, restituindo os lutos, devolvendo as idades que foram, mas descobri que isso ninguém quer, porque é coisa de cada um ter a sua. Saudade é que nem história, bicho teimoso, desmente a razão, fiandeira do tempo, não cabe em verbo algum, vertiginosa arte de minúncias, de dar tons aos detalhes, de denunciar os amores partidos, pedaço de inquietação, abraço agonizando, senhora das idades, convite ao desatino, sofrimento de carne, casa de se visitar inteira, da sala aos escombros do porão, víceras ao contrário, avessos de todas as gravidades. Como impedir uma morte, barrar uma ida? Como expulsar uma saudade? um timbre fino arranca o coração a unha, é o peito que me bate, medo de morrer de poeira, de ouvir Maysa e não dançar bolero. Não é ausência, mas rombo presença do que já não há.
Em angústia larga me tomam as lembranças, filme invisível do que foi diante dos olhos. É que há bonitezas que só são possíveis admirar diante do embargo da vista, do turvo da lágrima, o vulnerável do molhado então me abraça: saudade é como uma distância sentida e impensável? Achei uma imagem bonita: "uma distância penetrada e irrigada de ternura"(1). Assim é a saudade que me cabe.
Agora quero escrever inteira, fala sem lígua, do vazio ao eco. O sofrimento conhece poucas notas, linhas retas e estreitas. Do sofrer ao sentir. Sofro de abismar-me, deste inevitável espaço entre eu e o outro, seja aqui, morto, ou ausente, sempre outra coisa; sinto presença, memória, reticências de todo mundo, no, aquém e além do meu peito. Do aperto ao derrame da cidade em mim.
Saudades tem também vontade de linhas, um "entre" o passado e o por vir, artista de horizonte, improviso do amor. Tem uma borda que fala dos abismos, limite das coisas, dos corpos, que registra a precariedade da carne no desejo de fusão, seja em tempos, peles, espaços; que conta dos encontros possíveis, das erupções, estribilho de vida, fronteiras do chão. Danada, despenteia certezas, bagunça a gaveta, entorta a imortalidade inexistente, empina pipas entre palavras, imagens e esquinas.
Não seria a saudade uma distância necessária, um (contra) tempo parteiro de sentido e espaço? distância não seria o mistério entre o que se vê e o que se sente? uma afirmação do desconhecido, da diferença? um limite espacial - pele de coisas? algo que o tempo ainda não alcançou? uma ambiência para o encontro? uma velocidade desconhecida pelo espaço? um gosto em só ser? uma vontade de si? uma voz em vocábulos desconhecidos? o nome do que me aperta em sítio largo?que modos de distâncias e quais as partilhas necessárias para O encontro? como encontrar distâncias sem exilar? um ritmo estranho? Km's de cuidado e delicadeza? não seria ela a comunicação de que algo é movente além e aquém de nós? uma paixão com sobrenome? como produzir distâncias que não quebrem os amores? o que fica do que é solo, do que encontra, do que aproxima? o que vive de uma distância?
Nem preguiça, ou desgosto, como previa o texto, é que tem palavras que são como mantras, o demasiado uso lhe rouba o sentido, então parece carência. A boa notícia é que na beira do fio podemos reiventá-la na sintaxe, delirá-la no corpo, enlouquecer o que foi. Saudades conta que a vida já não é a mesma de outrora, que o corpo não coube em outras casas, que o tempo é de outras coisas, um sinal que arrebenta (n)o peito e se finda nas costas, como asas que crescem.
Dia destes aprendi uma palavra nova. Querência no dicionário fala de sítios grandes; no peito de uma saudade presente na vida de quem vai. Tem palavras irmãs em sentido, vizinhas em sentimento. Tem dias que tudo chama saudades, puro por vir, corda resistente ao convívio, recusa a expulsão, quente no rosto, vento de dentro, febre no corpo, para além do nome, convite a reinvenção dos tempos em mim. Num verso Anita contou assim: "Nada disfarça o apuro do amor"(2). Dizem que é possível, mas não aprendi ainda a conceber o amor e a morte na mesma vida. Desatinada deste jeito só pode ser da mesma desordem familiar: força, amor e saudade; sofro deste desentendimento: músicas que ressucitam inquéritos e obtuários, cadáver-semente, carta de alforria! saudades denuncia pela lembrança, minha afirmação mais intratável, meu vício mais íntimo, um desejo clandestino, o movente nem tão secreto ou privado: um verso que agora só se chama amor!
* http://br.youtube.com/watch?v=doc1eqstMQQ
(1) Amparo oferendado por Barthes
(2) Denúncia realizada por Ana Cristina César
Um comentário:
Queriiiiiiiiiiiida Dani,
guria!!!!!!!!!!!!!! que derrame foi esse?
viajei contigo ligeira, pura emoção e ressonancia.
beijos
Lo
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