Ela me fala de cyborgs, da retina, do cosmo, do turquesa dos azuis; da caminhada
do amor que se aprende no caminhando, nos avessos e no corpo. Conta-me do sonho
de vitrola, dos vendavais e frescores da alma que acolhe e reinventa o convívio.
Nos passos, ela carrega o olhar — desejo solar de recriar o 'chão de estrelas' —
olhos atentos e palavras, como aprendeu na antiga canção.
Outro dia, a conversa
foi mas podia ser de mulheres na cozinha. E as cores da tarde nos segredaram que
casa boa é aquela onde se bebe na mesa, se dança na rua e se ama na vida —
amizade querida. Palavras vividas no sonho, na pele: tessituras do que foi
desejo — e é agora livramento e vínculo — engravidando o mundo, curando-nos dos
espasmos do tempo. Ela chama de "edição de vídeos", mas creio que essa
lembrança, reinventada na artesania do hoje, é a intratável delicadeza do seu
ofício. Labor que transborda pelos os olhos - instantes em que se pode demorar
todos os dias, vida-a-vida antes de chegar em casa - Pequena cicatriz de quem
vive, marca que estende o horizonte: um diário de imagens.
Hoje, pela sua
retina, cheguei a um lugar estranho, um "sabido-aconchego". Trabalho, morada
vertical, sítio onde tudo se faz de pedra, peito, céu e luzes. E meus olhos, em
vez de pousarem nas nuvens, percorreram encontros inteiros para que, enfim, eu
pudesse chegar em casa. E aqui, do alto do encontro, do miúdo que é ser uma,
sinto que o "fora" e o "outro" são os modos mais vivos de se chegar em si, em
mim: corpo-morada, casa-abrigo.
É verdade, nunca me buscaste nas
juras de carinho e intimidade; mas, sempre distraida me encontrava no teu olhar
— sob o argumento do encontro e da fotografia, giramos demoradamente do negro
para o branco e contamos uma à outra que a vida é algo que insiste em nascer a
cada instante, a cada click. Ao contrário de quem leva algo, você só me devolveu
uma ousadia: a de pousar o olhar nas coisas pequenas, nas matérias passageiras,
tornando-as vivas e reais — como se diz da duração, da imagem, das palavras e
dos amores.
Nessa chegada em casa, vi pelas tuas lentes — olhar que liberta — um
corredor, o verde das plantas, a fechadura, o vermelho do vestido. E na abertura
da porta, meu peito entoava para que eu não esquecesse: sonhar com o que "não
serve para nada" serve para nos livrarmos da anestesia do que "funciona para
tudo" — cintilantes desejos a alongar os horizontes. Mesmo que a escrita só me
retorne agora e que a invenção dos dias seja dia-ria-mente... longe daqui, ou
mais tarde.
Carta-resposta em agradecimento a oferenda do @diário de imagens de 23.11.2012
Para ver: youtube @diáriodeimagens
Para ouvir: Junio Barreto –
Noturna
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