quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O reparador de sonhos - uma elegia para Zé


 
                                                                                         


Na escrita - escutando Belk


José Carlos Guardarim, o mais distinto dos sonhadores, casou-se duas vezes com sua única e atual viúva, Maria Aparecida Martins. Pai de Carlos Eduardo Guardarim e, indiretamente, de Daniela Patrícia dos Santos, faleceu em 22 de outubro de 2025, aos 80 anos. 

Manutencista de profissão - ou reparador (como brincávamos), tímido por fora e divertido por dentro. Era gentil, devoto de seus amores e da criação de sonhos a cada hora do dia. Usava relógio de corda e, assim, reparava os descaminhos do tempo viveu cada instante reafirmando o passado, com a calma do presente, germinando a esperança que nele era ativa: nas segundas-feiras, nas caminhadas, na semana passada e nos amanheceres também.

Seu maior feito em nosso caminho autorizou minha pré-história: quando, separado de sua atual viúva, ausentou-se da união dos meus pais para que, como um capricho do acaso, eu fosse concebida.

Vinte e seis anos depois, emocionado, olhou-me nos olhos pela primeira vez, resgatando neles a juventude e a beleza de minha mãe, sustentando os tempos idos, contou-me com ternura: “sua vida faz valer toda espera!”. E houve muito dela ainda, compartilhada por largos dezenove anos.

Recebi esse amor que cuidou da minha mãe, do meu avô, do meu irmão, da manutenção das casas das mulheres da vizinhança e que me nutriu com a mais aclamada polenta à galinhada de que se teve notícia.

Outro dia, uma amiga me contou que reparar é como parar, olhar, fazer, rearticular e seguir novamente só que de outro jeito, compartilhando. Achei tão nós, tão ele, tão multidão. Re-parar e seguir é bonito demais, porque a errância é o que temos de mais genuíno para uma vida boa, fecunda, que segue adiante, fruto da própria história e do que se diz querer viver.

Ele, de boné e sorriso de menino, aos oitenta anos, amou até o último segundo, nem um pouco a menos do que pôde; seu afeto era palavra mas no gesto: no cuidado da 

lida diária com a casa, com as pessoas, com o di-cumê, com seus objetos (coisinhas de antigamente) e com a própria fé. Havia nele um sagrado singular: seu corpo miúdo, disposto e encarnado, podia com tempo de todos os viventes brando providente e presente.

Devoto dos próprios quereres, de vida longa e desfrutada, soubemos recentemente que ele se candidatara, depois de aposentado, novamente ao mundo do trabalho. Qual a serventia disso, homem? É que ele era um inventor de sonhos: queria ganhar tempo, vida e trabalho para comprar e compartilhar a terra, a casa, a areia e a maresia quintal para a gente brincar.

Há dentro de mim um dito que sempre se repete quando a saudade acena: morto querido não para de viver dentro da gente. Então, meu bem, seguiremos contigo!

Obrigada por acontecer em nossos caminhos. Você é mais que memória inclusive para quem nem te conheceu: é criatura em prece inspiradora, a sonhar dentro da gente, para sempre.

Por tudo isso e muito mais, a próxima onda que eu pular terá o seu nome.


Funeral embalado por Resposta ao Tempo 

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