José Carlos Guardarim, o mais distinto dos sonhadores,
casou-se duas vezes com sua única e atual viúva, Maria Aparecida Martins. Pai
de Carlos Eduardo Guardarim e, indiretamente, de Daniela Patrícia dos Santos,
faleceu em 22 de outubro de 2025, aos 80 anos.
Manutencista de profissão - ou reparador (como brincávamos), tímido por fora e divertido
por dentro. Era gentil, devoto de seus amores e da criação de sonhos a cada
hora do dia. Usava relógio de corda e, assim, reparava os descaminhos do tempo — viveu cada instante reafirmando o passado, com a calma do presente,
germinando a esperança que nele era ativa: nas segundas-feiras, nas caminhadas,
na semana passada e nos amanheceres também.
Seu maior feito em nosso caminho autorizou minha
pré-história: quando, separado de sua atual viúva, ausentou-se da união dos
meus pais para que, como um capricho do acaso, eu fosse concebida.
Vinte e seis anos depois, emocionado, olhou-me nos
olhos pela primeira vez, resgatando neles a juventude e a beleza de minha mãe,
sustentando os tempos idos, contou-me com ternura: “sua vida faz valer toda espera!”. E houve muito dela ainda,
compartilhada por largos dezenove anos.
Recebi esse amor — que cuidou da minha mãe, do meu avô, do meu irmão, da manutenção das casas das mulheres da vizinhança — e que me nutriu com a mais aclamada polenta à galinhada de que se teve
notícia.
Outro dia, uma amiga me contou que reparar é como
parar, olhar, fazer, rearticular e seguir novamente — só que de outro jeito, compartilhando. Achei tão nós, tão ele, tão multidão. Re-parar e seguir é bonito demais, porque a errância é o que temos de
mais genuíno para uma vida boa, fecunda, que segue adiante, fruto da própria
história e do que se diz querer viver.
Ele, de boné e sorriso de menino, aos oitenta anos, amou até o último segundo, nem um pouco a menos do que pôde; seu afeto era palavra — mas no gesto: no cuidado da
lida diária com a casa, com as pessoas, com o di-cumê, com seus objetos
(coisinhas de antigamente) e com a própria fé. Havia nele um sagrado singular: seu corpo miúdo, disposto e encarnado, podia com tempo de todos os viventes — brando providente e presente.
Devoto dos próprios quereres, de vida longa e
desfrutada, soubemos recentemente que ele se candidatara, depois de aposentado,
novamente ao mundo do trabalho. Qual a
serventia disso, homem? É que ele era um inventor de sonhos: queria ganhar
tempo, vida e trabalho para comprar e compartilhar a terra, a casa, a areia e a
maresia — quintal para a gente brincar.
Há dentro de mim um dito que sempre se repete quando a
saudade acena: morto querido não para de viver dentro da gente. Então, meu bem,
seguiremos contigo!
Obrigada por acontecer em nossos caminhos. Você é mais
que memória — inclusive para quem nem te conheceu: é criatura em prece inspiradora, a sonhar dentro da gente, para sempre.
Por tudo isso e muito mais, a próxima onda que eu
pular terá o seu nome.
Nenhum comentário:
Postar um comentário